Estando ele sentado naquele jardim vigiando a sós, todos de quando em vez se aproximavam dele com um sorriso de amizade ou uma palavra amiga. Ao final da tarde pôs-se então à mesa com os que lhe eram mais próximos e um só dos seus amigos reparou com um espírito atento o que ali acontecia de forma quase imperceptível. Olhando à volta só ele notava como o principezinho naquele dia não tinha deixado nada ao acaso. Enquanto comiam e bebiam o céu e a luz misturavam-se com ele no centro daquela mesa: sentados no chão, o principezinho guardava uma posição vertical que contrastava estranhamente com a horizontalidade de toda a terra. Assim apareciam também os que lhe eram próximos: verticais numa terra fechada por uma horizontalidade de espírito. Ninguém se lembrava de ter alguma vez visto uma tarde tão luminosa. O principezinho, no centro daquela mesa, dividiu e distribuiu o pão por todos. Ninguém reparava, mas de vez em quando o principezinho fechava os olhos e entristecido pensava para si próprio: em verdade, em verdade, todos os que hoje comem comigo vão um dia trair-me. Poucos o conseguiam sentir, mas naquele dia fez-se um grande silêncio por toda a terra. Depois, pegava com a mão num copo e bebia com eles dialogando para si próprio naquele silêncio: uma destas noites todos vós vos escandalizareis por minha causa e todos me negarão quase sem olhar para trás. Concentrado em si o principezinho via um homem sozinho e deitado ao leme de um barco muito grande. Sentia-se cada vez mais frágil e perdido no mar. Se tentava observar o horizonte não via o céu nem sequer o mar que então lavrava. Subia e descia mastros, montava e desmontava velas conforme a ferocidade dos ventos nas trevas, mas cada vez se sentia mais só e mais fraco. Talvez o principezinho tivesse agora percebido: ainda que todos o queiram, talvez ninguém tenha o poder de estar infinitamente com alguém. E sentado naquele jardim o principezinho continha muitas vezes o choro e o ranger dos dentes relativos à escuridão que o assombrava e outras vezes conseguia confiar em tudo, doado em grande confiança ao que ainda assim havia naqueles dias.
Quarta-feira, Maio 14, 2008
Estando ele sentado naquele jardim vigiando a sós, todos de quando em vez se aproximavam dele com um sorriso de amizade ou uma palavra amiga. Ao final da tarde pôs-se então à mesa com os que lhe eram mais próximos e um só dos seus amigos reparou com um espírito atento o que ali acontecia de forma quase imperceptível. Olhando à volta só ele notava como o principezinho naquele dia não tinha deixado nada ao acaso. Enquanto comiam e bebiam o céu e a luz misturavam-se com ele no centro daquela mesa: sentados no chão, o principezinho guardava uma posição vertical que contrastava estranhamente com a horizontalidade de toda a terra. Assim apareciam também os que lhe eram próximos: verticais numa terra fechada por uma horizontalidade de espírito. Ninguém se lembrava de ter alguma vez visto uma tarde tão luminosa. O principezinho, no centro daquela mesa, dividiu e distribuiu o pão por todos. Ninguém reparava, mas de vez em quando o principezinho fechava os olhos e entristecido pensava para si próprio: em verdade, em verdade, todos os que hoje comem comigo vão um dia trair-me. Poucos o conseguiam sentir, mas naquele dia fez-se um grande silêncio por toda a terra. Depois, pegava com a mão num copo e bebia com eles dialogando para si próprio naquele silêncio: uma destas noites todos vós vos escandalizareis por minha causa e todos me negarão quase sem olhar para trás. Concentrado em si o principezinho via um homem sozinho e deitado ao leme de um barco muito grande. Sentia-se cada vez mais frágil e perdido no mar. Se tentava observar o horizonte não via o céu nem sequer o mar que então lavrava. Subia e descia mastros, montava e desmontava velas conforme a ferocidade dos ventos nas trevas, mas cada vez se sentia mais só e mais fraco. Talvez o principezinho tivesse agora percebido: ainda que todos o queiram, talvez ninguém tenha o poder de estar infinitamente com alguém. E sentado naquele jardim o principezinho continha muitas vezes o choro e o ranger dos dentes relativos à escuridão que o assombrava e outras vezes conseguia confiar em tudo, doado em grande confiança ao que ainda assim havia naqueles dias.
Quarta-feira, Abril 30, 2008
Segunda-feira, Abril 28, 2008
Dentro de mim há uma baleia negra e magra de morte. ela respira quando eu grito fora do meu poço. quando eu penso: estou perdido no caminho e sou uma baleia de borboletas e pássaros queimados como palavras lançadas e tecidas ao vento. eu estou tantas vezes morto, digo. e logo acordo. e venho à superfície lenta da cidade: existe alguém desse lado? e acordo novamente. o que há de haver outro em mim, desnuda-se no centro da minha pobreza e eu sou uma linha que se apaga, um semáforo de mão fechada para o trânsito minúsculo na grande estrada da vida. dentro de mim há esta baleia unida ao conceito de um pássaro cheio de raízes e borboletas. é uma ideia borboleta e interior feita de uma estrela imensa. dentro de mim. eu esvoaço. esvoaço na luz. eu desteço-me. palavra a palavra na malha negra do Verbo. como o corpo branco da minha amada. e depois fecho os olhos. atravessa-me o tempo. e posso fechar as mãos, posso então abeirar-me da luz e ser só dentro de mim.
Segunda-feira, Março 24, 2008
Lembro-me de naquele tempo não haver sequer vento, de não se agitar uma árvore lá fora e de haver um terraço apenas com roupa estendida e o cheiro do sabão espalhado nos tecidos. Lembro-me apenas de coisas mínimas. Do cheiro das laranjas que apodreciam no chão irisadas na luz que se entornava então sobre a terra. Lembro-me de naquele tempo sentir que cada palavra era uma distância. De sentir as coisas espalhadas no chão do meu quarto e de sofrer por só lentamente me poder aperceber de que tudo estava radicalmente só e dividido. Lembro-me, aliás, de naquele tempo ter dividido pela primeira vez as coisas do mundo: o chão e os frutos, as árvores e o céu, as ondas e o mar. Lembro-me de ter visto pela primeira vez o mundo representado nas asas de uma borboleta: cada asa é uma pessoa, murmurei, e cada borboleta é o pequeno prodígio de haver um mundo. Pensei que as asas de cada borboleta poderiam ser duas pessoas que ora se encontravam ora se perdiam para uma distância que na tensão da presença jamais poderia ser infinita. Pensei que o equílibrio de haver borboletas era justamente este ofício do encontro: no meio da borboleta estava o labirinto de haver um possível, de haver um animal sozinho na viagem das pessoas que o construíam para a sua morte. Não havia vento naquele tempo: as borboletas repousavam sem perturbações nos círculos de água da minha face. Lembro: cada asa tem o seu duplo como cada lábio tem o seu par, disse. Pela areia do sono descia ao fundo do meu coração e lembro-me, recordo-me muito bem de no interior do meu quarto ter construído uma margem de silêncio onde mais tarde entrancei o teu cabelo e casei o movimento dos teus pés descalços na areia das praias. De tudo isto fiz borboletas. Das ondas e do mar, do teu cabelo, dos teus olhos nos meus. Do teu corpo em ti própria. Cada borboleta regressa a si mesma como uma flor ao nascer da luz: fixando o sol, das asas nasce o animal e do animal nascem as casas, as palavras e o amor. Depois a borboleta faz uma escada para trás, para o seu deserto, para o fim do poema, para o fim de todos os poemas. Eu apago os passos: cada borboleta apaga então o que deixou pela areia: uma escama de luz, um pedaço de asa. E se chegou ao céu por voar, regressará a casa porque consegue pisar por amor o coração sem asas nem animal que lhe resta. Naquele tempo era tudo como me lembro hoje: a casa lá fora estava deitada sobre a luz, cá dentro não se agitavam as árvores e as palavras beijavam-se entre o silêncio. As coisas continuavam espalhadas pelo chão do meu quarto. E eu? Recomeçava, eu.
Domingo, Março 23, 2008
Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
faz hoje um mês que parti. há um mês que parti. foi esta noite, outra noite, outra vez. a mesma noite. faz hoje um mês que parti. um ano. um dia. um momento. faz hoje um instante, um dia puro que parti. que me deixei ao fundo da rua. que deixei as palavras e os seixos da manhã na água amarela dos jarros das flores. hoje faz precisamente um momento. um dia que deixei de escrever na carne com um amor completo e aceso no meio das mãos. há um mês que parti. faz hoje um mês que este é o meu peito: um rio tejo de poucas palavras, um homem sentado no chão do quarto como se fosse o interior da terra ou como se fosse simplesmente puro, atravessando a correr o amor. morrer, reviver: encosto a cara ao cheiro dos barcos e devagar eu sou aquela água despenhada na noite. de uma carne branca. daquela mulher na solidão do amor. respirando. vês-me? ainda me vês? penso. há um mês que parti como se fosse o cantar das águas na espuma contra os barcos do tejo. que flores cegas são estas sobre as quilhas dos barcos que sou? rompem-se as estrelas junto à cara maciça no sofrimento desta viagem. descem os dedos. há um mês que parti, penso. oiço os meus sinos nas trevas. sou um texto sem poros. sem palavras. sou um barco alto na espuma cega. mergulhado nos filamentos do amor. do amor dentro, chamando aquela mulher ardente. aquela mulher que naquela noite fugia nua para o mar. como se atravessasse o mundo. com o amor ao meio. num ramo de flores amarelas. a mesma noite. hoje é a mesma noite. onde sou absolutamente aquele movimento celeste da espuma junto ao corpo desta mulher molhada pelo mar até às raízes da sua inocência. tão branca que só podia ser habitada pelo silêncio. faz hoje um mês que eu beijei cada onda sua através dos meus dedos apavorados pelas estrelas. faz este momento um instante que há uma mulher branca dentro de mim que caminha para o amor. para a mar. e a minha respiração são aquelas ondas que lhe ceifam o corpo. metidas pela terra dentro. o corpo que bate contra mim no ar onde dormem as estrelas, os campos deitados para o fogo do coração das coisas. faz agora um momento. um momento de ardor, de campos extraordinários e brancos lavrados para a candeia de um homem que partiu. que se deixou. que se desdobra, perfeito. na ponta dos nomes. na ponta dos pés sobre o meu corpo: nas palavras que se abrem delicadamente para mim. na pureza do mundo. daquela mulher que estremece quando de noite digo baixo o seu nome. o teu nome. sussurro. murmuro. morro e crio. recrio, respiro e contigo caço flores no tejo, desentranho o sono que há dentro das tuas mãos. e em cada momento eu sou o mês que partiu, o meu peito desocupado pelo azul. iluminado. quente. como se só houvesse o interior do teu corpo.
Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
quase não há imagens destes dias. esta noite, outra noite, esta noite qualquer vou dentro do carro e se estendo a mão fora da janela ao vento cresce o silêncio deserto à volta do zumbido do vento. venho triste pelo asfalto fora. estou cada vez mais triste, sabes? ninguém sabe, ninguém pode saber. mas estou cada vez mais triste. venho infinitamente comigo mesmo, junto a mim numa intimidade absoluta e sem passagens. penso em ti. há um pássaro que se move. dentro de mim. do voo ao ramo. da luz, ao chão. do escuro a mim. penso em ti. regresso devagar e trago no peito ainda o sangue da tua morada. da tua cama branca e tão nua que não há, não poderia nunca haver imagens. nem nenhum rosto. só esta escuridão branca de veludo. dentro da minha cabeça. porque não há quase imagens deste tempo. trago o rádio ligado: só noto agora que trago o rádio ligado. e sorrio. venho triste pelo asfalto dentro. apago a música. vou dentro deste carro através da noite. são três da manhã e eu não existo. estou dentro de mim, infinitamente dentro de mim abraçado a mim dentro de mim. apago o rádio. e agora só se ouve o motor do carro. a música continua dentro de mim. é uma poesia silenciosa. como a chuva fria a cair na estrada. eu desaprendo a fala assim. com todos os sentidos do silêncio. eu desaprendo as imagens. eu desaprendo tudo. e fico sem imagens. sem amigos. sem ninguém. volto para casa junto aos muros das ruas. oiço as coisas devagar. como por exemplo: o som dos motores. a minha respiração. e cada vez existo menos. subtraio-me à habilidade de falar. contigo. fecho-me por dentro. sem mim, sem ninguém. acrescento a minha ausência ao quarto vazio. adormeço. não digo. deito-me, apago as imagens no cansaço das minhas mãos. desdobro os lençóis brancos à luz do brilho do candeeiro. penso em ti. às vezes tenho saudades tuas. e aqui propago o escuro dentro dos meus olhos. entro nas sombras. para dentro do meu coração. e pouco me importa a fome, ou o relento do meu sono cercado pelos dias. porque ninguém me salvará. em cada dia ninguém me salvará. nenhuma imagem. nenhum livro. nenhuma palavra. nenhuma palavra iluminada. nestes tempos. nestes tempos nem o tempo me salvará.







